terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Para um vestibular que DEScota! Cotas já!


Selecionei esta questão de uma prova discursiva do vestibular da UFRJ de 2007. Nesta prova, matemática não é específica, ou seja, questões como essa são freqüentemente aplicadas a candidatos de cursos como Biologia, Educação Física, História, Direito ou Medicina.

Quando um candidato obtém a correta solução da questão, tem-se a certeza de que este memorizou as propriedades e aplicações de logaritmo, bem como a concepção do que é uma função f(x). O que questiono é por que se considera que este candidato está mais apto a ser um melhor médico, advogado ou biólogo?

Será que na carreira de um médico ou advogado de sucesso são inúmeras as oportunidades onde se aplica o logaritmo da base 3? Na engenharia se usa logaritmo na base 10, na base 2 e natural, então talvez a questão pudesse até ter utilidade. Não se anime amigo candidato de área exata, na prova específica de matemática o buraco é mais embaixo!

Questões abstratas e sem sentido prático como estas nada provam, não selecionam adequadamente o candidato como base na sua inclinação para a área, ou seja, não apontam quais os melhores potenciais profissionais. No entanto, candidatos ao curso de medicina precisam acertá-la com certeza, pois qualquer deslize em qualquer questão pode custar-lhes a vaga.

Em um momento que tanto se fala sobre um sistema de cotas raciais e sociais, afirmo que discussão faz-se urgente e necessária, pois as questões de matemática, física e química dos vestibulares podem por si só criar um sistema de DEScotas, ou seja, podem selecionar apenas candidatos de colégios privados e cursinhos preparatórios.

Um professor de um colégio público encara muitos desafios, pois precisa ensinar conteúdos complexos para alunos que possivelmente possuem pais analfabetos. Disciplinas potencialmente abstratas como matemática parecerão intragáveis para uma sociedade onde ser traficante é o que há de melhor. Será bem difícil convencer que há utilidade prática em reconhecer que se log3C=2 então c=9.

A prova do vestibular já serve como DEScota para a entrada na universidade. Questões como esta são senhas distribuídas nos cursinhos e colégios privados para garantir que apenas brancos de classe A e B entrem na universidade. No pré-vestibular ou naqueles bons colégios pagos o professor repete este tipo de problema de forma incansável. Não haverá mérito algum em fazer esta questão em um piscar de olhos, mas servirá de pretexto para que se afirme que o filhinho-de-papai do colégio privado será melhor médico ou advogado que o morador da favela.

Aqueles que são contra as cotas normalmente pregam que deve haver igualdade de condições e direitos no acesso às universidade públicas. Pergunto-me, se baseado no que expus, alguém realmente acredita nisso. Talvez nem mesmo em uma sociedade perfeita pudéssemos avaliar a capacidade de um futuro advogado pelos seus conhecimentos de logaritmo.

Na nossa triste realidade, as provas de vestibular são como cães de guarda de uma sociedade racista, classista e preconceituosa. Imagino a imagem daquele professor catedrático corrigindo a prova e pensando de forma reprovativa: "este não sabe nada de LOG! Não chegará nem mesmo a zelador do hospital...".

Claro que não são os professores de matemática os culpados pelo preconceito da sociedade, muito menos pela DEScota das provas de vestibular. De qualquer forma, enquanto não encontrarmos uma forma mais justa de testar aptidão, acho que um sistema de cotas será perfeitamente viável. Será aceitável que alguns candidatos de colégios públicos ou grupos raciais minoritários e pobres sejam aceitos nos cursos com notas mais baixas. Não deveríamos reconhecer o potencial de quem não possui educação forma, mas consegue aproximar-se da resposta por regra de três?

Ah! Mas lá vem aquela ladainha de melhorar o ensino médio e fundamental primeiro e deixar de lado esta estória de cotas. Uma ótima solução, mas que não resolve o problema das inúmeras gerações de alunos de colégio público que não obtiveram a dádiva da boa educação, aquela que abre nossas mentes ao maravilhoso mundo do logaritmo.

A cota não é uma solução final, mas é o melhor remédio para tratar os sintomas. Na minha opinião é totalmente justo que metade das vagas seja destinado a alunos de colégio público. Deixe a outra metade das vagas para os que treinam e pensam em logaritmos dia e noite. Caso estes mesmo assim não consigam passar, papai pode pagar faculdade privada cara. Seria injusto continuar desperdiçando vagas para quem não aprende mesmo com todas as condições favoráveis.

Não podemos esquecer que no final das contas esforço, dedicação, ética e profissionalismo são muito mais importantes para o êxito em qualquer profissão, muito mais que qualquer conteúdo cobrado no vestibular.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Direitos trabalhistas!

A rede Globo e o empresariado começou recentemente campanha para aprovar e convencer que se mude a legislação trabalhista, a consolidação das leis do trabalho (CLT). Tentam tirar proveito do momento frágil da sociedade mediante as notícias de crise mundial, bem como seus possíveis impactos aqui no Brasil.

Na verdade, é bem antigo o comentário de que a legislação trabalhista no Brasil é ruim. Faz muito tempo que escuto a conversa de que bom mesmo é trabalhar nos Estados Unidos ou no méxico, onde não há férias ou décimo terceiro salário... bom para quem?

Trata-se de uma tentativa de convencimento midiático. A Globo e diversos meios de comunicação tentam espalhar a idéia de que menos impostos e direitos trabalhistas aumentarão a oferta de empregos e trarão benefícios à sociedade. Balela!

Uma empresa, pequena ou grande, terá apenas o número mínimo de funcionários para funcionar. Nenhuma empresa contrataria mais funcionários apenas porque ficou mais barato ou menos complicado. Qualquer direito retirado vai direto para os lucros, concentrando renda e tornando nossa vida ainda mais insuportável. O custo social será miséria e violência, para qualquer uma das mudanças trabalhistas sugeridas no fervor da discussão sobre a crise.

Neste últimos dias tenho ouvindo vários "especialistas" dizendo nos grandes meios da comunicação que algumas modificações trarão benefícios às empresas nestes tempos "difíceis" que estão por vir. Certamente beneficiarão as empresas, mas o impacto está fadado a ser muito ruim. Será que devemos mudar a lei para dar vantagens a estes empresários que só lembram dos funcionários quando há tempestade? Por que não repartiram o bolo nos tempos de bonança?

Tendo trabalhado vários anos em empresas privadas, percebi que a mentalidade do empregador é, com raríssimas exceções, aproveitar todas as possibilidades e brechas que a lei oferece para beneficiar-se, ou seja, para obter lucro. Todas as modificações da CLT devem ser bem pensadas, ou daremos carta branca para que façam o que quiserem.

Fala-se, por exemplo, em permitir que os empregadores dêem férias aos funcionários em até três partes de 10 dias. De pronto, esta modificação causará a diminuição dos contratos temporários, ou mesmo demissões. Se as empresas puderem alocar partes pequenas das férias dos funcionários em momentos oportunos, certamente poderão reduzir ainda mais o quadro, pois não precisarão de extras para cobrir férias.

Outro perigo é a extensão ou reinterpretação da legislação de banco de horas. Se funcionários puderem ficar alguns dias sem trabalhar para compensar aumentos de produção, o que impedirá as empresas de mandarem seus funcionários para casa por um mês inteiro? Querem produzir e nos explorar de forma desumana, gerando stress e problemas de saúde, para depois nos mandar passear sem pagar horas extras ou justos adicionais pelo tempo em que nos esgotaram.

Estão também falando sobre o chamado Layoff, a "brilhante" modificação na CLT que permitiria que a empresa mande para casa os funcionários que bem desejar sem quebrar o vínculo empregatício, mas também sem precisar pagar salários. Em tese, este tempo sem salário poderia ser prorrogado por até 10 meses, à critério da empresa.

Lógico que um pai de família desempregado por até 10 meses vai acabar procurando outro trabalho, e sem ser muito rigoroso com o salário. Acabará certamente encontrando-o em outra empresa por muito menos do que ganhava. Quando extinguir o prazo, o funcionário pensará duas vezes antes de voltar para seu emprego original, pois na prática os horários são os mesmos para todos e a maioria dos trabalhadores não pode ter dois empregos. Entre uma empresa que o mandou pastar por 10 meses e outra que paga um menor salário, é bem óbvio que quem tem família para sustentar vai preferir o certo ao duvidoso.

E que contrapartida ganhamos? Promessas que o salário e nível de emprego vão aumentar? Não acredito e não aceito! Devemos permitir mudanças sim, mas desde que haja vantagens para ambos os lados. Estão querendo fazer com que apenas as empresas saiam ganhando! Isso não é certo!

Se querem parcelar as férias, então tem que ser mais de 30 dias! Se querem colocar legislação de banco de horas, então cada dia trabalhado deve gerar dois dias de folga e o layoff, bom, este é para discordar sem discussão.

O fato é que a sociedade não é formada por grandes empresas, mas sim pelas pessoas que trabalham nestas. Países que não pensam assim certamente mudarão de opinião, cedo ou tarde. Devemos lembrar que se temos monitores Samsung, celulares Motorola e televisores LG, é por que diversas pessoas trabalharam duro para projetá-los, montá-los e vendê-los. São estas que a lei deve proteger, não as empresas e marcas.