
Selecionei esta questão de uma prova discursiva do vestibular da UFRJ de 2007. Nesta prova, matemática não é específica, ou seja, questões como essa são freqüentemente aplicadas a candidatos de cursos como Biologia, Educação Física, História, Direito ou Medicina.
Quando um candidato obtém a correta solução da questão, tem-se a certeza de que este memorizou as propriedades e aplicações de logaritmo, bem como a concepção do que é uma função f(x). O que questiono é por que se considera que este candidato está mais apto a ser um melhor médico, advogado ou biólogo?
Será que na carreira de um médico ou advogado de sucesso são inúmeras as oportunidades onde se aplica o logaritmo da base 3? Na engenharia se usa logaritmo na base 10, na base 2 e natural, então talvez a questão pudesse até ter utilidade. Não se anime amigo candidato de área exata, na prova específica de matemática o buraco é mais embaixo!
Questões abstratas e sem sentido prático como estas nada provam, não selecionam adequadamente o candidato como base na sua inclinação para a área, ou seja, não apontam quais os melhores potenciais profissionais. No entanto, candidatos ao curso de medicina precisam acertá-la com certeza, pois qualquer deslize em qualquer questão pode custar-lhes a vaga.
Em um momento que tanto se fala sobre um sistema de cotas raciais e sociais, afirmo que discussão faz-se urgente e necessária, pois as questões de matemática, física e química dos vestibulares podem por si só criar um sistema de DEScotas, ou seja, podem selecionar apenas candidatos de colégios privados e cursinhos preparatórios.
Um professor de um colégio público encara muitos desafios, pois precisa ensinar conteúdos complexos para alunos que possivelmente possuem pais analfabetos. Disciplinas potencialmente abstratas como matemática parecerão intragáveis para uma sociedade onde ser traficante é o que há de melhor. Será bem difícil convencer que há utilidade prática em reconhecer que se log3C=2 então c=9.
A prova do vestibular já serve como DEScota para a entrada na universidade. Questões como esta são senhas distribuídas nos cursinhos e colégios privados para garantir que apenas brancos de classe A e B entrem na universidade. No pré-vestibular ou naqueles bons colégios pagos o professor repete este tipo de problema de forma incansável. Não haverá mérito algum em fazer esta questão em um piscar de olhos, mas servirá de pretexto para que se afirme que o filhinho-de-papai do colégio privado será melhor médico ou advogado que o morador da favela.
Aqueles que são contra as cotas normalmente pregam que deve haver igualdade de condições e direitos no acesso às universidade públicas. Pergunto-me, se baseado no que expus, alguém realmente acredita nisso. Talvez nem mesmo em uma sociedade perfeita pudéssemos avaliar a capacidade de um futuro advogado pelos seus conhecimentos de logaritmo.
Na nossa triste realidade, as provas de vestibular são como cães de guarda de uma sociedade racista, classista e preconceituosa. Imagino a imagem daquele professor catedrático corrigindo a prova e pensando de forma reprovativa: "este não sabe nada de LOG! Não chegará nem mesmo a zelador do hospital...".
Claro que não são os professores de matemática os culpados pelo preconceito da sociedade, muito menos pela DEScota das provas de vestibular. De qualquer forma, enquanto não encontrarmos uma forma mais justa de testar aptidão, acho que um sistema de cotas será perfeitamente viável. Será aceitável que alguns candidatos de colégios públicos ou grupos raciais minoritários e pobres sejam aceitos nos cursos com notas mais baixas. Não deveríamos reconhecer o potencial de quem não possui educação forma, mas consegue aproximar-se da resposta por regra de três?
Ah! Mas lá vem aquela ladainha de melhorar o ensino médio e fundamental primeiro e deixar de lado esta estória de cotas. Uma ótima solução, mas que não resolve o problema das inúmeras gerações de alunos de colégio público que não obtiveram a dádiva da boa educação, aquela que abre nossas mentes ao maravilhoso mundo do logaritmo.
A cota não é uma solução final, mas é o melhor remédio para tratar os sintomas. Na minha opinião é totalmente justo que metade das vagas seja destinado a alunos de colégio público. Deixe a outra metade das vagas para os que treinam e pensam em logaritmos dia e noite. Caso estes mesmo assim não consigam passar, papai pode pagar faculdade privada cara. Seria injusto continuar desperdiçando vagas para quem não aprende mesmo com todas as condições favoráveis.
Não podemos esquecer que no final das contas esforço, dedicação, ética e profissionalismo são muito mais importantes para o êxito em qualquer profissão, muito mais que qualquer conteúdo cobrado no vestibular.


2 Comentários:
Dá onze (um (três elevado a zero) + 9 (três elevado a 2) + 1 (multiplicação de 3 elevado a um beta qualquer por 3 elevado a menos beta qualquer, que fica equivalente a 3 elevado a zero (soma beta com menos beta), ou seja, 1). Não levei 15 segundos pra fazer. Mas concordo, prova de matemática pra direito tinha que abranger lógica, que é algo que eles precisam pra tomar decisões, ou seja, as provas não-específicas tinham que abordar temas periféricos específicos pra cada grupo de carreiras, e não coisas totalmente sem utilidade.
Sim, fácil, fácil...
Mas o que prova? Que lembramos de propriedades de LOG...
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