Fim de campanha, sossego na NET e na mídia. Este é um bom momento para reflexão. Uma ótima hora para responder uma pergunta que ainda insiste em aparecer no apagar das luzes da vitória: por que apenas 56% dos votos válidos?
Na verdade, 52% é mais adequado para nossas comparações, pois trata-se da quantidade de votos absolutos, incluindo nulos e brancos. Por que apenas metade dos eleitores quis defender a continuidade do governo Lula?
O atual presidente possui 82% de popularidade, ou seja, de pessoas que consideram o governo bom ou excelente. Somando-se aqueles que consideram o governo razoável, este percentual chega a 94%. Como pôde um governo tão bem avaliado transferir tão poucos votos para a sua candidata?
Existe uma distorção enorme entre estes dois dados. Se subtrairmos a popularidade do governo Lula (82%) dos votos dados à Dilma (52%), encontramos uma diferença de pelo menos 30% de pessoas que deixaram de votar na continuidade. Por que isso aconteceu?
Seguindo a tradição deste blog em fazer listas de motivos, vamos avaliar quais as principais razões pelas quais estes 30% foram perdidos. No futuro, isso pode servir de base para que possamos brigar ainda mais por estes eleitores, entendendo por que eles aprovam o governo mas não querem que ele continue, por mais absurdo que isso pareça.
Vamos lá! Razões que levaram os eleitores que aprovam o governo a votar na oposição:
1) Acharam que Serra seria melhor:
Ao que parece, um bom número destes 30% achou mesmo que Serra era mais "experiente" ou "competente". Não adiantou pendurar FHC no seu pescoço. A bem da verdade, o governo Fernando Henrique acabou há oito anos e as lembranças daqueles tempos negros estão se esvaindo. Dentro em breve muitos não saberão nem mesmo quem foi o ex-presidente que quebrou o país três vezes.
Sem a herança maldita de FHC não houve como convencer muitas dessas pessoas que Serra privatizaria tudo, cortaria educação, saúde e investimentos, ao contrário do que ele pregava. Nas próximas eleições este efeito deverá ser ainda mais forte. Devemos nos preparar.
2) Acreditaram na história do aborto:
Muita gente é conservadora neste país e a história do aborto causou certa comoção. Com o apoio da mídia e de diversos líderes religiosos mal intencionados, espalhou-se calúnias de que Dilma matava criancinhas.
Tá certo que isso não foi suficiente para perder as eleições, mas no futuro o PT precisa de uma central de combate a boatos mais ativa. Isso vai acontecer novamente, possivelmente em um momento mais decisivo.
3) O efeito Marina e Plínio:
Talvez menos forte do que o planejado pela oposição, Marina e Plínio acabaram por cativar um grupo da população que ainda anseia por mudanças. Uma parcela do eleitorado aprova o governo, mas acredita que ainda deveria haver uma mudança radical no Brasil.
Este efeito poderá diminuir se o próximo governo for tão bem avaliado quanto este. Há uma tendência a não buscar novos candidatos quando tudo vai bem. Mesmo assim, acho inevitável que isso ocorra nas próximas eleições. Aconteceu com Ciro Gomes em 2002, Heloísa Helena e Cristovam Buarque em 2006 e agora com Marina em 2010.
A diferença de 2010 foi que Marina deixou grande parte do PV fazer campanha para Serra e Plínio pregou o voto nulo. No segundo turno, parte destes votos migraram para Serra e certamente fizeram parte dos 30% perdidos.
4) O escândalo da Erenice:
Como uma cópia dos aloprados em 2006, o escândalo da Erenice acabou por causar danos e engrossar os 30% perdidos. Há uma parcela do eleitorado mais sensível à mídia, que se não acabar votando no Serra, seu preferido, pode também optar pelo voto nulo de protesto.
Por isso é tão importante que se invista em mídia alternativa, não apenas para levar o outro lado das histórias para a opinião pública, mas também para que se divulgue ativamente as "Erenices" de todos os candidatos, não apenas as do PT.
5) Dilma não tem tanto trato com a câmera e não fala tão bem como político tradicional:
Dilma melhorou muito, mas não tem a experiência com a mídia e com a TV que possui Serra. Gagueja, fala algumas coisas sem muito nexo e comete gafes. Isso tudo certamente prejudicou.
No futuro, um melhor tratamento com a câmera, aliado a bons resultados do governo, darão maior firmeza ao eleitorado de Dilma, diminuindo estas perdas. Não podemos deixar de levar em consideração que Aécio, possível candidato da oposição, poderá trazer um efeito carismático tipo Collor que esta eleição não teve, dificultando ainda mais a vida de Dilma.
6) O aumento de renda da população
A renda cresceu e hoje a classe C tem bem mais dinheiro e ambições de consumo. Talvez tenha havido um pequeno movimento deste eleitorado para à direita conservadora, iludido pelas idéias de corte de impostos e diminuição do estado.
Infelizmente isso vai continuar acontecendo. Quanto mais se melhorar a vida do classe média mais este tenderá a compadecer das idéias que hoje são características da elite. O governo Dilma deverá ficar atento à estes movimentos e buscar reformas que atendam a esta parcela, principalmente se o Brasil continuar crescendo, assim como a classe média.
7) O salário mínimo de R$600
Serra prometeu um salário mínimo de R$600 e aumentos para os aposentados. Possivelmente não os faria, ou se fizesse cortaria investimentos em todo o Brasil para fechar a conta.
Serra fez esta promessa em um momento de baixa de sua candidatura, mas talvez isso possa ter influenciado o eleitorado fiel ao governo. Esse tipo de ilusão continuará a ocorrer, e caberá à campanha no futuro contradizer melhor estas promessas e evitar que a maioria veja nelas alguma viabilidade.
Não sei se deveríamos nos preocupar muito com isso. Se a oposição realmente achasse que tinha alguma chance real não teria feito tamanho kamicase. Devemos ficar atentos e reagir a isso no futuro.
8) O passado de combate à ditadura
Se tanta gente não lembra mais de FHC, que dirá da repressão da década de 70. Neste caso, a campanha de mentiras sobre Dilma terrorista e assaltante pode ter levado uma parcela de votos, principalmente de jovens que não tem noção do que foi o golpe de 64.
O combate às perdas deste tipo de eleitorado é muito simples: criar uma eficiente central de boatos integrada à internet. Com ainda mais gente na rede, a próxima campanha isso será ainda mais importante.
Bom, é isso. Demorei para publicar algo sobre isso embora já estivesse pensando há tempos nestas diferenças. Ponderei que seria melhor esperar estes dias mais frios da militância para que ter maior clareza do que foi esta disputa eleitoral.
Dilma terá muito trabalho pela frente e um de seus primeiros embates será conquistar a confiança destes 30% que não votaram nela. Empatar com o presidente Lula em popularidade e manter os bons resultados já será considerado excelente, embora não garanta que parte da população deixará de cair na ilusão da direita no futuro.
2 comentários:
É isso aí. Temos que pensar, compreender e agir. em menos de 2 anos teremos eleições novamente e não devemos deixar para fazê-lo lá.
Apoiado!
Postar um comentário