segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

WikiLeaks reescrevendo a história

A primeira vez que aprendi algo sobre a ditadura foi no meu primeiro livro de história recente do Brasil, por volta de sexta série. Já era final da década de 80 e não havia mais censura, mesmo assim o livro continuava a clamar a grande "revolução de 64".

Lógico que a verdadeira história do golpe não mudou nada desde aquela época. Teve apenas que ser reescrita. Muito trabalho, pesquisa, entrevistas e depoimentos foi e ainda será necessário para desvendarmos uma parte tão obscura da nossa história, a fim de deixarmos um importante registro para as próximas gerações.

Recentemente já se descobriu, em documentos liberados pelo próprio governo americano, que os EUA financiaram fortemente a nossa ditadura. Isso já pode constar nos livros. Há grande mudança na forma de entendermos o governo militar considerando certa esta antiga hipótese.

Uma pena é que a história verdadeira só pode ser conhecida após mais de 40 anos, tempo que levou para os EUA liberarem alguns dos documentos oficiais que provavam seu envolvimento em nossa ditadura. Quantos ainda teremos que esperar para descobrir o dedo deles nos nossos problemas mais recentes?

Aí que entra a importância do WikiLeaks. Poderemos descobrir muito mais rápido se os americanos financiaram a direita Brasileira, se ajudaram Collor, Globo, FHC, Serra, Alckmin ou outros. Há grande desconfiança, mas nunca houve certeza. Será que os primeiros livros já poderão ser escritos com a verdade?

Não é à toa que tanta gente está furiosa com Julian Assange, o criador do WikiLeaks. Apesar de algumas reclamações procedentes, como os casos onde os vazamentos poderiam divulgar a posição de agentes secretos anti-terrorismo, a maioria dos documentos deixam a diplomacia americana em má situação, justamente por terem se intrometido onde não deviam.

Recentemente o WikiLeaks divulgou emails da embaixada americana no Brasil contendo relações entre o candidato Serra e as petroleiras americanas. Nada de muito comprometedor. Nada que não se soubesse. A relevância disso tem teor histórico. No futuro, quando contarmos a época do Pré-sal para nossos filhos e netos poderemos dizer quem são os mocinhos e quem tentou fazer lobby para que o Brasil cedesse a exploração de suas riquezas para o estrangeiro.

O WikiLeaks divulgou também diversos emails contendo estranhas relações de nosso ministro da defesa Nelson Jobim com o embaixador americano. Ainda não ficou claro quais os interesses por trás de algumas conversas divulgadas, mas parece não ser simples coincidência a proximidade dos americanos com tucanos.

Em todo o mundo os vazamentos de documentos oficiais reescrevem a história, que pela primeira vez não será contada apenas por quem tem dinheiro. Podemos descobrir quem é o jogador, quais são seus movimentos e principalmente, quem são os paus-mandados deles aqui no Brasil.

Assange e o WikiLeaks precisam ser protegidos e estimulados. Esta é a maior iniciativa à democracia desde os Gregos, pois pela primeira vez teremos a chance de conhecer nosso verdadeiro passado e buscar o melhor futuro com nossas próprias pernas, um pouco mais protegidos das influências de Tio Sam.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O oposto da grande mídia

Concordo com a ocupação das comunidades no Rio de Janeiro. Já era a favor de que isso fosse feito muito antes das UPPs serem cogitadas. Tive esta idéia em 1996 enquanto jogava Warcraft II.

No jogo trava-se uma batalha em um mundo de fantasia da idade média e ganha quem possuir mais guerreiros e equipamentos, ou seja, recursos. Não há necessidade de matar o adversário, apenas tirar seu território e seu ouro é suficiente para levar a vitória. Muito parecido com o que está acontecendo agora no alemão e nas comunidades já ocupadas.

Mas não é sobre isso que escrevo agora, mas sim sobre algo muito estranho que está acontecendo comigo e com a mídia no último mês. Por incrível que pareça, este blog está  concordando com a Veja e o grande PIG na necessidade das ocupações. Isso não está certo.

Nunca, em toda história deste que vos escreve houve concordância tão veemente com a publicação da Abril. E não pára aí! O editoral do Estadão parece que saiu da minha boca e o que leio na Folha poderia perfeitamente estar neste blog.

Haveria uma mudança nos horizontes e nos tempos? Estou ficando velho e cansado de brigar? houve uma adequação da grande mídia diante da derrota de seu candidato nas eleições para presidente? Tudo é possível.

Como sou demasiado analítico, a idéia de separar o que acontece em possibilidades é tentadora. Vamos lá:

Primeira possibilidade. Eu mudei de lado. Estou mais velho e vou caminhando para um conservadorismo chato. Talvez daqui há alguns anos me encontrem no caixa de algum supermercado reclamando da vida e comprando bolachas para meus netinhos.

Segunda possibilidade. O PIG e a Veja mudaram. Cansados do jornalismo esgoto, resolveram se dedicar aos fatos reais e salvar a última lasca de sobriedade e profissionalismo que resta. Agora que escrevi, vejo o quanto isso ficou estranho e pouco plausível.

A Terceira possibilidade é a que eu mais boto fé, pois acho que no fundo a grande mídia não é a favor de gastar dinheiro para fazer as operações. Todos estes aplausos são apenas uma enrustida sede de sangue.

Teoria da conspiração ou não, o barões do PIG podem perfeitamente estar iludidos com os helicópteros e blindados da marinha, imaginando que depois disso virá a mão de ferro do estado, que removerá as favelas e vai restaurar a ordem em uma marcha da família com Deus pela liberdade. Soa familiar?

Neste cenário, os filhotes da ditadura ainda não perceberam que o objetivo destas operações não é matar bandido, mas levar o estado a uma população que precisa muito dele. Não acredito que haveria tamanha concordância se fosse apenas para gastar dinheiro com pobre. Nunca gostaram disso.

Se eu estiver certo, quando a poeira no Alemão baixar e começar a construção da infra-estrutura das UPPs e do PAC, o PIG voltará à sua luta contra a distribuição de renda, contra Lula e Dilma e principalmente contra o "excesso de gastos" com o povo mais pobre.

Desta forma este blog estará finalmente no seu lugar: o oposto da grande mídia. Assim espero, pois não gostaria que meus pensamentos se tornem elitistas, como aquelas pessoas que não emitem opinião antes de interfonar para o porteiro e perguntar se já chegou a Veja da semana.