quarta-feira, 19 de setembro de 2018

2018 não é reedição de 1989

Está rolando na internet uma interessante análise que compara as eleições de 2018 com as de 1989. Na época, no longínquo Brasil do final da década de 80, dois candidatos de esquerda, Lula e Brizola, brigavam para ir ao segundo turno enfrentar Collor, o principal ícone da nova política que surgia.

Há semelhanças, realmente, entre ambas as eleições, mas também existem enormes diferenças. A primeira é que Collor era uma figura carismática, com cara de novo, energético, esportista, combativo, bonitão de fala mansa e boa retórica. Foi isso que o fez ganhar as eleições: ele era exatamente o cara que o povo queria que fosse presidente.

Lógico que não se sabia nada de ruim sobre ele. Tudo foi muito bem planejado no campo do marketing para vender a ideia de competência, agilidade e liderança para uma geração mais nova e ativa. Collor, na época, tornou-se imbatível.

Dessa forma, é totalmente falha a ideia de que Brizola teria change de derrotar Collor caso não tivesse sido ultrapassado por Lula no primeiro turno das eleições de 1989. Teria perdido da mesma forma. Brizola também era odiado pela Globo, com rejeição pela classe média e sem o mesmo ar jovial e energético que Collor vendia. Todos perderiam, inevitavelmente.

Collor foi uma força política indiscutível, com enorme apoio popular. Lembro de ouvir, mais de uma vez, um Maracanã lotado em final de campeonato gritar o nome dele, carregando uma enorme esperança de um Brasil melhor. 

Collor foi uma penitência inevitável que a nossa democracia teve que pagar. Um preço pelo  aprendizado das aventuras políticas.

Voltando aos dias de hoje, posso afirmar com certeza que Bolsonaro não é como Collor. O que ocorre hoje é totalmente diferente. A escolha por Bolsonaro é uma tendência da extrema direita, por alguém que dê tiros, que diga que vai matar, torturar, fuzilar e que seja totalmente intransigente. O marketing é totalmente contrário ao de Collor.

Tanto Haddad quanto Ciro terão a mesma dificuldade em derrotar Bolsonaro, mas infinitamente menos do que a tarefa de bater Collor em 1989. Hoje somos muito menos trouxas para acreditar em combate ao comunismo como principal mérito de um político, e a rejeição do capitão é muito maior do que a do caçador de marajás.

E vale lembrar que Haddad e Ciro não são barbudos que assustam a classe média moralista, ao contrário: possuem um discurso muito mais afinado e político. Perfeitos para combater o extremismo.

A briga certamente vai ser boa, e esperamos ser justa como não foi em 1989. Tenho grande esperança de que Bolsonaro não seja mais um castigo que o nosso povo precise sofrer para compreender a democracia, pois a vitória do extremismo será muito dura e difícil, muito mais do que a aventura colorida da década de 90.
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