sábado, 23 de janeiro de 2010

Tô com medo!



Nas eleições de 2002, Regina Duarte se ofereceu em uma última tentativa desesperada para que FHC fizesse seu sucessor. Não deu certo, Lula ganhou e hoje está a completar seu segundo mandato.

Não estou aqui para falar mal de Regina, ela já foi ridicularizada o suficiente. Escrevo pois acho que agora a situação está se invertendo. Eu é que estou com medo!

Estou mesmo! Deixo aqui publicado para quem quiser ler. Minha vida melhorou muito neste últimos 7 anos de Lula. Sou professor do ensino técnico, uma das muitas áreas agraciadas pelo governo com bons salários e investimentos. Vi com os meus próprios olhos as diferenças para o governo FHC.

Trabalho em uma escola técnica, o CEFET. Sou professor. Tudo está diferente com Lula no poder. Hoje temos um bom orçamento e boas condições para dar aulas. Por exemplo, no setor em que estou comprou-se todo o tipo de equipamento como computadores, monitores de LCD, osciloscópios digitais coloridos e até alguma aparelhagem para TV digital. Sabe-se na escola que se há projeto sério é possível conseguir dinheiro. Não que tudo esteja perfeito, mas as melhorias são claras.

O salário também melhorou muito. O ensino técnico foi equiparado ao superior e em todos os anos de governo Lula recebemos aumentos acima da inflação. Não se faz qualquer greve há bastante tempo, estamos vendo os investimentos chegando e novas escolas técnicas sendo inauguradas. Tudo isso mostra o empenho de Lula na educação.

Totalmente diferente dos anos de chumbo de FHC onde o CEFET foi sucateado. Esteve, inclusive, a ponto de ser "privatizado". Pouca gente sabe disso, mas próximo de 2000 o governo federal cortou  vagas, todos os gastos e concursos para que a iniciativa privada assumisse as escolas técnicas. Arrocho e cortes era o plano para ser executado a partir de 2002. Os CEFETs fechariam ou seriam administrados pelas empresas como bem entendessem, sem qualquer compromisso com qualidade e com o desenvolvimento do país, obviamente.

O problema agora se inverteu. José Serra será possivelmente o adversário de Dilma em 2010. Estou com medo assim como a Regina, não posso deixar de perceber a semelhança.

Eu sei que as chances de Dilma são boas, mas José Serra lidera as pesquisas. Ainda falta muito para as eleições e a maior parte do povo ainda nem se tocou que Dilma é a continuação de Lula, mas não posso deixar de ter receio de que haja um golpe eleitoral ou que se engane o povo com qualquer conversa de última hora. Já aconteceu isso no caso dos aloprados em 2006 e no mensalão em 2004.


Não posso deixar de ter medo de que toda esta bonança nos últimos anos acabe rapidamente em cortes e sucateamento. O meu momento "Duarte" seria assim:

"Tô" com medo! Tenho medo de que aquele tempo do desemprego volte!
Com medo que voltemos à época onde não havia investimentos do governo.
Tudo era sucateado e destruído para depois ser vendido.

"Tô" com medo da época do ministro Paulo Renato, atual secretário de educação de Serra,
em que tudo era cortado e arrochado. Não havia mais concursos ou orçamento,
nem dinheiro para o giz. O ensino técnico, assim como superior e tudo mais, estava fadado a acabar privatizado.

"Tô" com medo da época da Petrobrax, onde só o pessoal escolhido estava empregado. Da época das terceirizações do setor público e das privatizações. Tudo vendido a preço de banana para enriquecer alguns e dane-se o resto!

"Tô" com medo de que a classe C volte a ser o que era, ou seja, excluídos do país. Estou com medo de que voltemos a sofrer com as crises mais esdrúxulas, com a falta de energia elétrica e com todo o desgoverno e corrupção que sempre era acobertada pela mídia.


Embora eu tenha muita esperança que Dilma ganhe no primeiro turno, este medo está me perseguindo. Acho que ficarei assim até as eleições.

Estou até pensando em fazer um vídeo e colocar no youtube. Alguma coisa simples... apenas uma câmera me focalizando de frente para que eu possa dizer: "tô com medo!"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lula, o filho do Brasil

Ouvi questionamentos na mídia e na internet sobre o filme do Lula. Alguns dizem que possui caracter eleitoreiro e outros reclamam que a produção mostra um Lula demasiado perfeito e mitificado.

Assisti o filme hoje e gostei.  Dirigido por Fábio Barreto, a produção conta a história de Lula desde que saiu do nordeste até virar sindicalista em São Paulo. Até certo ponto, lembra um pouco "2 Filhos de Francisco", que também me agradou.

O filme diverte, sem dúvida, e possui poucos momentos realmente políticos. Inicia-se mostrando como a família mudou-se para São Bernardo e como Lula conseguiu seu primeiro emprego como torneiro mecânico. Depois, mostra como Lula conheceu sua primeira mulher e como ela faleceu. Mostra o acidente que lhe fez perder um dedo, como conheceu sua segunda e atual esposa e finalmente como engajou-se no sindicalismo. Ao que parece, Lula não gostava muito do sindicato até ficar com a vida sem rumo depois da morte de sua primeira mulher.

Mais para o final do filme, Lula é eleito presidente do sindicato dos metalúrgicos, envolve-se em diversos protestos e é preso pela ditadura. Esta é a única parte política do filme, menos de um terço do total.

Não acho que o filme mitifica o personagem de Lula, não tanto como costumeiro em Hollywood. Na maioria dos filmes americanos o mocinho prefere morrer amarrado a uma bomba ao ter que aceitar qualquer solução não perfeitamente ética ou não completamente dentro de sua ideologia.

Ao contrário do protagonista típico dos filmes americanos, o personagem de Lula é mostrado com falhas sim, como qualquer ser humano. Em uma determinado parte do filme, Lula aceita se candidatar para a diretoria de um sindicato ligado aos militares, e em uma atitude nada perfeita.

Mais a frente, ao descobrir que o presidente do sindicato está envolvido com maracutaias, Lula não abandona a instituição e começa a lutar sozinho como faria Willian Wallace de Coração Valente nem mesmo mata o presidente com uma metralhadora como faria Bruce Willians em Duro de Matar. Ao contrário destes heróis, Lula disse ao presidente do sindicato para "sair de fininho" e que nas próximas eleições ficaria com a presidência da chapa. Lula não é um herói mitificado como Superman para fazer justiça com suas próprias mãos.

Em outra cena, Lula aceita terminar uma greve que já durava quase um mês pois assim poderia permitir que os salários dos dias de greve pudessem ser pagos, o que não deixaria os trabalhadores sem dinheiro para pagar suas contas. Ao fazer isso, Lula é chamado de traíra por seus próprios companheiros. Você já viu algum filme de herói de Hollywood em que isso aconteça?

Quanto a ser eleitoreiro, isso não faz o menor sentido pois Lula não pode se candidatar a mais nada. Se quisesse ajudar nas eleições, não teria sido mais inteligente lançar este filme em 2002 ou 2006 quando Lula poderia obter vantagem disso? Não seria melhor agora fazer um filme sobre a Dilma?

Além disso, não acredito que o filme aumentará a popularidade de Lula, ela já é estratosférica, não há como melhorar. Na verdade, acredito que seja exatamente o contrário, o objetivo do filme é pegar uma carona nesta enorme adoração a Lula tanto no Brasil como no exterior. Com certeza ganhar prêmios em festivais e garantir bastante bilheteria vai ser muito mais fácil se a maioria das pessoas já gostar bastante do protagonista.

Para terminar, o que me deixou um pouco decepcionado em "Lula, o filho do Brasil" é que o filme acaba na parte mais interessante de todas: o movimento das diretas, as eleições de 90 e toda a história que leva Lula a presidência em 2002. Quem sabe um Lula 2 ainda está por vir? A história continua, companheiro!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Natal de 1983

Na década de 70 não havia computador pessoal, celular ou internet. A diversão das crianças daquela época era jogar bolinha de gude, peão, andar de bicicleta, jogar bola e soltar pipa.

Mas a partir da década de 80 tudo mudou, foi a era do videogame. Bicicleta? Bola? Pipa? Isso tudo não me interessava. Eu queria era jogar videogame! Era apenas uma questão de tempo para que todas as crianças se viciassem na nova brincadeira, que mais tarde teria grande impacto na minha vida.

Para mim tudo começou no natal de 1983. Pedi para o meu pai, na verdade, para o papai Noel, um odyssey como o mostrado abaixo. Ainda bem que ele não me ouviu!

Embora bem mais interessante, o Odyssey 2 fez bem menos sucesso que o atari

O odyssey era uma droga, os jogos eram um lixo, além de caros. Ao invés disso, meu pai conseguiu comprar um Atari 2600 de segunda mão, as coisas estavam difíceis naquela época.

Atari 2600 original

Lembro-me do exato momento em que vi o videogame. Minha avó me chamou para me tapear enquanto meu pai e minha mãe escondiam o presente. Ao chegar na sala me disseram que papai Noel tinha vindo e deixado o que eu tinha pedido.

Procurei tanto tempo pela caixa do odyssey que tinha visto nas Lojas Americanas até que encontrei o aparelho de madeira mostrado na figura acima, um Atari 2600. Pensei que tinha sido culpa minha por não ter sido claro no meu pedido.

A frustração durou pouco porque gostei muito dos jogos. Lógico que os gráficos eram uma droga e o som ainda pior. No entanto, deve-se considerar que na época qualquer coisa era impressionante. Lembro-me da satisfação de controlar o bonequinho do "donkey kong" e o rato de "mouse trap", aquilo para mim era muito mais entretenimento que qualquer bola ou bicicleta, até porque eu morava em um apartamento e não havia espaço para isso.


Donkey Kong e Mouse Trap

Ao contrário de outras brincadeiras, o Atari exigia apenas uma TV e garantia horas de diversão. Era tudo que eu precisava! Quando eu cansei dos jogos que vieram originalmente não foi difícil ou caro conseguir outros. O Atari possuía um componente primordial para o sucesso, o mesmo que fez o PC e o PlayStation ficarem famosos - a pirataria.

Com um monte de fabricantes vendendo cartuchos compatíveis e jogos de atari, os anos se passavam e o videogame ficava mais interessante. Logo eu descobri os viciantes "Enduro" e "River Raid".

Enduro e River Raid

E depois vieram Keystone Kappers, Frostbite, Hero, Mr Postman, Adventure, Pac Man, Boxing, Spiderman, Frogger, Pitfall e outros. Sempre que você se cansava de um, podia arrumar outro. Como todas as crianças tinham Atari, não era dificil trocar cartuchos e garantir mais alguns dias de diversão.

Muitos jogos de Atari, lembra-se de todos?

Até que o videogame quebrou! Não há equipamento que aguente tanto tempo ligado. Primeiro foi a fonte, depois os controles, o cabo de RF, o adaptador "TV-GAME" e finalmente o console propriamente dito. Este último demorou 3 meses para consertar na assistência técnica, quase fiquei maluco com a abstinência.

Sempre que algo quebrava, eu e meu pai tentávamos desmontar para descobrir o defeito. Tivemos sucesso várias vezes mas sempre quebrava novamente. Não era chato, consertar proporcionava uma "diversão" adicional.

Tanto tempo que eu passava na frente da TV que quando eu tirava notas baixas na escola a culpa era sempre do videogame. Quanta injustiça! A solução era me proibir de jogar para que eu voltasse a estudar. Em uma dessas situações, minha mãe levou com ela a fonte do videogame (o adaptador AC) para que eu não me distraísse e estudasse para a prova. Mal ela sabia que eu conseguiria facilmente encontrar outra fonte de 9V e isso não iria me impedir! Só o que resolvia era esconder tudo: o console, os joysticks e os jogos.

Consertar os defeitos do Atari acabou fazendo com que eu me interessasse por eletrônica e mais a frente por computadores. Os jogos de videogame transformaram meus interesses e mudaram fortemente minhas aptidões. Tenho certeza que isso acabou me inclinando para a área de exatas e muito influenciou na escolha do curso técnico de Eletrônica no CEFET, e na escolha da faculdade de Engenharia anos mais tarde.

Lógico que eu ainda iria jogar Master System, Mega Drive, PlayStation e muitos outros jogos no PC. Só que nada disso teve o mesmo impacto, eram apenas evoluções do mesmo interesse despertado naquela natalina manhã de 25 de dezembro de 1983, quando colocamos a TV no canal 3 eu pude jogar Atari pela primeira vez.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Linux ainda não serve para o pequeno usuário

Sou entusiasta do linux desde 1996, quando comprei minha primeira distribuição Red Hat conectiva. Naquela época, o início da internet no Brasil, o linux parecia ser uma interessante opção em face aos horríveis windows 95.

Segurança e confiabilidade era o que buscavam os usuários do sistema operacional livre. O linux rodava de forma mais segura, travando menos, dando menos erros. Só que não era para qualquer um, o suporte a hardware era precário e a instalação era difícil.

Particionar o HD, incluir partições de swap e instalar o software gerenciador de inicialização exigia um conhecimento que apenas técnicos possuíam. Tudo isso dava diversos problemas, diferentes a cada máquina. Sem contar que o sistema tinha que conviver com o windows, o que por si só já era bastante difícil.

Mesmo depois de instalado, os problemas continuavam. Lembro-me que foi bastante difícil colocar minha placa de áudio para funcionar, uma soundblaster AWE32 legítima. Já o modem, um Zoltrix, foi totalmente impossível.

E hoje, 13 anos depois, como está o linux? Há pelos menos cinco anos estou distante do software livre, assim resolvi dedicar um tempo para fazer uma avaliação. Para isso, utilizei uma máquina antiga, um pentium III 500MHz com 768M bytes de memória RAM e dois HDs de 40Gbytes. Um pouco jurássico, é verdade, mas adequado para o teste já que o windows XP funciona normalmente.

Resolvi escolher a distribuição ubuntu [1], pois é a primeira que aparece quando digita-se linux no google [2]. Existem outras distribuições como a Mandriva ou o Fedora, mas pensei como usuário comum e resolvi seguir o mais popular.

Instalar o ubuntu foi difícil assim como em 1996. Tentei um instalador via windows mas não funcionou pois travava na inicialização da instalação. Há também um CD alternativo com um instalador em modo texto, isso acabou sendo mais prático depois dos diversos erros no CD original. Houve ainda uma dificuldade adicional devido a uma incompatibilidade com minha placa mãe, o que me obrigou a trocá-la por outra.

É conhecido o fato de que o Linux precisa particionar o seu HD em duas partes, uma para os arquivos do sistema operacional e outra para o swap [3]. Além disso deverá haver uma terceira parte que ficará com o windows e não pode ser mexida. Embora o Ubuntu possua um particionador automático para executar este trabalho, isso ainda é complicado e cheio de falhas. Nem sempre o automático escolhe a melhor opção.

Para concluir, a instalação da distribuição Ubuntu, a mais conhecida de linux, ainda não é confiável o suficiente para que se garanta que vai funcionar. Mesmo quando não funciona, ainda existem problemas graves pois o erro que impediu a instalação não é mostrado claramente e ainda acontecem acidentes como sumir com o windows (o que aconteceu umas três vezes).

Depois de alguns dias de pesquisas, incluindo a troca da placa mãe, finalmente consegui testar o linux. Algumas coisas me chamaram a atenção, melhorias significativas em relação às distribuições antigas que eu usava:

- A interface gráfica padrão, o Gnome, é um pouco lenta, mas é agradável. Possui links para tudo que o usuário precisa como planilhas e editor de texto (vem com o open office), editor de imagens, ferramentas administrativas e gravador de CD/DVD.
- O suporte a hardware também é bom, minha placa de áudio, rede e a aceleração de vídeo funcionaram sem precisar de drivers.
- Sobre a rede, essa é a primeira distribuição de linux que finalmente acessou a minha rede local e copiou arquivos compartilhados dos computadores windows que possuo. Bastante interessante, isso melhorou muito.
- O firefox do ubuntu dá completa compatibilidade com a internet, pode-se acessar internet banking ou qualquer outra coisa que você precise. Isso também melhorou.
- O ubuntu possui um sistema semelhante ao Windows Update, que funciona muito bem. Atualizou o Kernel (a base do sistema operacional) e pediu para reiniciar. Funcionou normalmente.

No entanto, o Linux ainda está muito longe de ser util para o pequeno usuário. A instalação é difícil e a manutenção do sistema é bastante complexa. A maioria dos usuários consegue corrigir pequenas falhas no windows ou baixar algum software que o faça. Mas no Linux tudo fica mais enrolado, instalar programas, por exemplo, ainda é tarefa complexa, que inclui baixar pacotes de um certo tipo ou configurar um repositório. Sem contar que às vezes um novo programa só funciona com algumas linhas "sudo" de terminal, sem condições para quem não possui um técnico especialista em casa.

A falta de aplicativos e a dificuldade de suporte fazem o linux ainda estar longe do usuário e perto de malucos como eu, que se divertem com mensagens tipo "Kernel Panic", "This ATA drive is too slow, please be patience" e "changing HD size from 0 to 4000000".

Será que algum dia o linux se tornará uma opção real ao windows? Será que o software livre é uma utopia? Algum dia veremos a quebra deste monopólio Microsoft? Pensarei nestas perguntas enquanto me divirto com as mensagens e configurações malucas do linux! Um sudo feliz natal para vocês!

terça-feira, 14 de julho de 2009

2 para mim, 1 para você...

"O que o povo brasileiro precisa mesmo é de emprego!"
"O Brasil precisa de uma reforma trabalhista para gerar mais empregos."
"Vamos diminuir impostos e gerar mais empregos."

Fale estas frases em público que veja o que seus amigos e familiares acham sobre estas idéias.

Já fiz isso e adianto o resultado, a maioria deverá responder que estão corretas estas ideologias. Muitos não estarão pensando por si, mas repetindo o hipnotismo que cerceia a intelectualidade brasileira. Vou usar este espaço para mostrar por que descordo de tanta gente.

Primeiramente, deve-se desfazer a idéia de que emprego distribui renda. Ora, no capitalismo ninguém joga para perder. Para cada funcionário que uma empresa contrata por um salário X ela espera receber um lucro maior que X pelo trabalho deste funcionário. Nada errado nisso, é a base da boa administração e do capitalismo. Empresas com lucro menor que o salário dos funcionários estarão fadadas à falência. Esta é a teoria do "2 para mim, 1 para você".

Cada vez que o lucro das empresas é recolhido e os salários são pagos, os donos ou acionistas das empresas estarão mais ricos que os trabalhadores que geraram a riqueza, pois receberão mais fatias do bolo. Neste modelo concentra-se renda cada vez que a economia roda, e é assim em todo mundo.

Os Estados Unidos são um ótimo exemplo disso. Poderia-se imaginar que a economia mais rica do mundo também deveria possuir o menor número de pessoas sem casa própria ou ganhando menos do que o custo de vida, mas não é. Deveria ser o país com a melhor distribuição de renda mas não é isso que ocorre. Guardadas as diferenças de escala, os Estados Unidos têm problemas sociais tão graves quanto o Brasil, e a riqueza do país também está nas mãos de poucos.

Ao final de muitas rodadas de recolhimento dos lucros e pagamento de salários, grande parte da população estará com apenas uma pequena fatia da riqueza do país, talvez nem mesmo o suficiente para sobreviver. A maior parte estará concentrada no bolso de poucos. Estes terão poder para dominar os jornais, a televisão e a mídia como um todo. Terão poder e dinheiro para eleger quem estes quiserem, para mandar e desmandar. Parece familiar?

A única coisa capaz de parar este processo e impedir a concentração total de renda chama-se imposto. Ninguém gosta de pagar, eu incluído, mas é a única forma. O governo, supostamente bem intencionado, recolhe uma parcela do lucro das empresas e das pessoas e reinveste na sociedade. Paga os salários dos professores, dos servidores públicos e investe em educação, saúde, bem estar social, na cultura e em outros interesses.

Fazer reforma trabalhista e reduzir impostos poderá ser muito bom para a economia, mas será terrível para a concentração de renda. Mesmo que mais pessoas possam ter emprego, a teoria do "2 para mim, 1 para você" continuará valendo e só conseguiremos possuir uma fatia muito pequena da riqueza do país, enquanto um pequeno grupo de empresários e políticos controlará toda a economia.

E se o governo não for bem intencionado? Não tem problema. Na próxima eleição eu posso votar na oposição ou no grupo político que eu achar ter melhores intenções. Ninguém pode votar contra Carlos Slim, o o milionário mexicano das privatizações. Fica muito mais difícil acabar com a concentração de renda uma vez que ela já é muito grande.

Sempre que um político ou comentarista da televisão vier com papo de reduzir impostos para gerar empregos lembre-se que ele defende as idéias do patrão dele, e que a fatia do bolo relativa aos impostos poderá perfeitamente voltar para gente, mas a concentração de renda nas mãos dos grandes empresários nunca voltará. "2 para mim, 1 para você..."