segunda-feira, 25 de junho de 2012

A democracia não avança sem um pouco de retrocesso

A comunidade internacional está perplexa com o impeachment de Fernando Lugo, presidente do Paraguai. Até aqui no Brasil há movimentação para que sejam feitos protestos e passeatas, enquanto a maioria dos países do Mercosul ainda está decidindo como agir.

Eleito em 2008, Lugo quebrou a hegemonia do partido conservador, o mesmo desde o tempo do ditador Alfredo Stroessner. São mais de sessenta anos de controle do mesmo grupo político, portanto todos sabiam que a luta de Lugo não seria fácil: enfrenta a mídia conservadora, grupos políticos arraigados ao poder e uma elite não se importa com nada além de seu próprio lucro. Parece familiar?

Quem derrubou Lugo foi o próprio legislativo, ou seja, eleitos pelo povo. Tudo ocorreu em um processo estranhamente secreto onde houve pouca oportunidade para ampla defesa, o que fez a cassação soar um tanto quanto apressada e desengonçada. Mesmo assim, não há um claro golpe de estado, tudo foi  aparentemente causado pela própria falta de habilidade política de Lugo.

Os paraguaios podem ter sido vítimas de seus próprios votos. Assim como no Brasil, há pouco engajamento político e isso se reflete fortemente nas eleições. Mudança deveria ser a palavra de ordem quando as coisas não vão bem. Assim, se não estavam contentes com os sessenta anos de administrações passadas, parece totalmente sem sentido que tenham eleito tantos deputados e senadores dos partidos conservadores.

Nada mesmo justifica a forte tendência de direita na política paraguaia. A maioria da população sobrevive com pouco mais de cem dólares mensais e a distribuição de renda é uma das piores do mundo. Mergulhado em corrupção, sonegação, contrabando e economia informal, o Paraguaí é uma versão hardcore do Brasil,  pobre e com uma desigualdade ainda mais marcante. Haja jinge bonitinho e marqueteiro que convença alguém a votar em quem sempre lutou para nada mudar nesta realidade.

Este aparente retrocesso que vemos no Paraguai não é nada incomum, faz parte da democracia. Aqui mesmo no Brasil vemos isso de perto. Um senado oposicionista, por exemplo, quase derrubou Lula no auge do  mensalão e voltaria a tentar, tenham certeza, não fosse um grande jogo de cintura de alianças do governo. Ninguém está imune aos interesses do grande capital e da raivosa elite preconceituosa.

Quem ainda pode fazer algo por si é o próprio povo paraguaio. Se derrubam o presidente e todos se acomodam, nada há que se fazer alem de lamentar. Ir às ruas e demostrar insatisfação pode ser a chave para ter Lugo de volta. Não se adquire consciência política da noite para o dia, mas este pode ser a oportunidade para um momento marcante na história do Paraguai, um passo para trás que forçará uma reação popular e poderá permitir um avanço de muitas décadas na democracia de nosso vizinho.

O Brasil e os países do Mercosul podem até impor sanções, mas acatarão a decisão do congresso caso não se perceba apoio popular à causa de Lugo. Devemos perceber que o Paraguai nada mais é do que o Brasil algumas décadas para trás, e assim como na campanha das diretas e na eleição de Lula em 2002, só o povo tem o poder de fincar o pé no chão e exigir que sua vontade seja acatada. A bola está no campo deles agora, só podemos exigir jogo limpo e torcer pela vitória da democracia.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Lula e Gilmar, uma história sem pé nem cabeça.

O conto de fadas que a revista Veja, com o perdão da má palavra, publicou neste fim de maio, consegue ter menos sentido que filme B de sessão da tarde. Trata-se da maior bobagem publicada contra o governo desde a história dos dólares de Cuba.

Pelo que consta no semanário, o ministro do supremo Gilmar Mendes teria sido chantageado por Lula para que adiasse o julgamento do mensalão. Parece piada, mas não é.

A tentativa de chantagem teria ocorrido, verifique o tempo do verbo, em um encontro ocorrido há mais de um mês no gabinete do ex-ministro Nelson Jobim.

Como a maioria dos "escândalos" publicados por Veja, este é mais um factoide que pode ser destruído usando apenas a lógica. Só mesmo alguém que acredite no Harry Potter poderia em sã consciência achar que o presidente Lula, com mais de 30 anos de política, tentaria chantagear Gilmar em frente a uma testemunha.

Além disso, se Lula quisesse interferir no julgamento do mensalão, não seria mais inteligente que ele pedisse favores aos seus indicados no supremo. O ex-presidente indicou 6 dos 11 ministros do supremo, ou seja, a maioria deles.

A ideia de que Lula procuraria Gilmar, indicado por FHC e claramente oposicionista, para pressionar a ajudá-lo é totalmente ridícula. Seria o mesmo que tentar treinar um lobo para proteger o galinheiro. Seria como instalar um vírus no computador para resguardar suas senhas. Uma idiotice que assustaria pela mediocridade, não fosse ter sido publicada por Veja.

Lula já emitiu nota negando tudo, Jobim estava no encontro e também já desabonou a versão fantasiosa de Gilmar. Não dá para entender como ainda tem gente que cai nesta historinha da oposição.

Gilmar está mesmo é encrencado por suas ligações com o bicheiro Cachoeira. Diz-se, à boca pequena, que o ministro do supremo teria utilizado o jatinho particular de uma das empresas do contraventor, tamanha intimidade que havia entre eles. Também se sabe que os comparsas de cachoeira frequentemente usavam a expressão "Gilmar mandou subir", para indicar que haveria facilidade quando os pedidos chegassem ao supremo.

Também é estranho o fato do ministro ter resolvido denunciar o ocorrido apenas um mês depois da reunião onde foi supostamente chantageado. Esdrúxulo foi ter escolhido a Veja como veículo de suas alegações ao invés de seguir pelas vias judiciais. Tudo isso apenas mostra que o elo Cachoeira-Gilmar-Veja é muito mais forte do que se imaginava.

Mas o ponto alto da história estava por vir nesta última semana quando a empresa Truster Brasil resolveu aproveitar o factoide para promover sua máquina detectora de mentiras. Talvez para o computador não seja tão fácil perceber que Gilmar anda fazendo afirmações com pernas curtas, mas mesmo assim foi possível para o  software indicar "segmentos fraudulentos" e "stress elevado" na entrevista que o ministro deu a GloboNews, onde foi questionado sobre o fato.

Não é a primeira vez que Gilmar é o centro das atenções da Veja. Em outra oportunidade ele se envolveu no escândalo do grampo, onde acusava o governo de ter acesso a seu telefone particular. Mais um factóide, pois o áudio do suposto grampo nunca foi liberado pela revista. A maior prova de que isso não era verdade é que teria sido muito mais fácil descobrir tudo sobre cachoeira muito antes da operação da polícia federal.

Só para terminar, o julgamento do mensalão importa muito pouco para Lula agora. Não há provas que sustentem as acusações e nada de novo em um escândalo que foi muito mais uma briga política. Lula se elegeu e fez seu sucessor na época em que isso ainda dava alguma audiência. Agora é só esperar que a mídia faça o último carnaval com este samba de uma nota só, que só causará algum efeito nos famosos escandalizados colunistas da grande imprensa.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A falácia do sódio nos refrigerantes


Dizem que refrigerante faz mal pois tem muito sódio. A Coca-Cola Zero, por exemplo, tem 28mg de sódio a cada 200mL. Isso é muito, um absurdo, uma desfaçatez para a saúde, dizem os entendidos.

Mas isso tudo é uma bobagem do pessoal metido a nutricionista. Se sódio fizesse assim tão mal à saúde teríamos que banir todo tipo de comida, salgada ou doce.

A gente come muito mais sódio no feijão e arroz do dia a dia do que em qualquer refrigerante. A cada 1Kg ou 1L de comida, um bom cozinheiro coloca, no mínimo, uma colher de sopa rasa de sal, ou seja, aproximadamente 8g de NaCl. Considerando que o peso atomico do sódio é 23 e do cloro 35, tem-se 40% de sódio no sal de cozinha.

Assim, se cada pessoa come aproximadamente 800g de comida por refeição, o total de sódio consumido será:

8g/Kg * 40% * 0.8Kg = 2,6g = 2600mg por refeição!

Em outras palavras, consome-se 2600mg de sódio por refeição! Que desastre nutricional!

Para que o sódio consumido no refrigerante chegue ao valor de uma refeição seria necessário tomar 92 porções de 200mL, ou seja, cerca de 18L de Coca Zero! Percebe-se, então, a falácia de que refrigerante faz mal por causa do sódio.

Não que eu esteja defendendo que refrigerante faça bem, mas não me parece que o problema seja o sódio. Em uma refeição de 800g acompanhada de uma Coca Zero temos 2% do sódio no refrigerante e 98% na comida propriamente dita! Só fará alguma diferença, logicamente, para uma pessoa com problemas de saúde que já tenha cortado totalmente o sal de suas refeições.

Mas não se preocupe que continuaremos a ver muita gente falando mal sobre o sódio nos refrigerantes e sucos de caixinha. A maioria das pessoas é muito mais fã de cientologia do que de ciência e adora espalhar bobagens pela internet. Uma pena...

domingo, 3 de junho de 2012

Greve de 2012 e um balanço de oito anos como professor federal

Há cerca de uma década decidi seguir a carreira docente. Fiz concurso para professor do curso técnico do Cefet-RJ e passei para Eletrônica. Assumi em 2004.

Naquela época o salário estava realmente ruim, o que não diminuía a grande concorrência pela vaga de servidor público. Vivíamos em 2004 uma tênue recuperação do país depois do desastroso segundo mandato de FHC. Todos estávamos ganhando muito mal, além do desemprego que teimava em assombrar a vida do brasileiro.

Antes de ser professor, eu já trabalhava como técnico há oito anos, ganhando um salário consideravelmente alto para este nível de escolaridade. Lembro-me que cheguei a ficar em dúvida se valeria a pena largar este emprego para ser professor, cuja exigência mínima é graduação em engenharia.

O salário inicial do CEFET em 2004, para quem tinha apenas graduação como eu, era de R$1637,21 mais R$121,50 de alimentação. Como a alimentação é paga em dinheiro no contracheque, o total bruto do salário chegava a R$1758,71. Cerca de 20% menos do que o que eu ganhava como técnico de nível médio!

Se você não é professor federal fica aqui uma explicação de como funciona nosso plano de cargos e salários: o professor ganha um salário base somado a outras gratificações fixas que todos recebem. De tanto em tanto tempo, cerca de 18 a 24 meses, há uma promoção por tempo de serviço que adiciona cerca de 2 a 3% no salário base.

Além disso, o professor também recebe um adicional por sua titulação. Mestres recebem uma considerável quantia e doutores um valor ainda melhor. Quem só possui a graduação, como era o meu caso em 2004, nada recebe.

Já ouvi muitos professores dizerem que a categoria está ganhando cada vez menos, mas na verdade, houve uma considerável recuperação salarial no governo Lula. Um professor iniciante como eu era em 2004 ganharia hoje em 2012 um salário de R$2872,85 mais R$304,00 de alimentação. Um total de R$3176,85. Cerca de 81% a mais que a merreca que era paga em 2004.

De acordo com o IPCA, estes últimos 8 anos acumulam uma inflação de aproximadamente 43%, ou seja, houve cerca de 38 pontos percentuais de aumento real nos anos do governo Lula. Pouco, mas certamente muito mais do que a iniciativa privada pagaria. A tabela abaixo resume os números indicados neste texto.


E não foi apenas isso! No governo Lula houve unificação das carreiras de ensino técnico e superior. Hoje, um professor de qualquer faculdade pública ganha o mesmo que um professor de ensino tecnológico, desde que, logicamente, possua o mesmo tempo de casa e a mesma titulação. Professores do ensino técnico que possuem mestrado ou doutorado receberam percentuais de aumentos entre 30% a 50%. Bastante razoável.

Pequenas benesses também surgiram, como o aumento no número de possíveis promoções por tempo de serviço, que passou, com o novo plano de cargos e salários, de doze para quinze. O governo também iniciou um programa que paga uma pequena parcela dos planos de saúde dos servidores.

Os ganhos reais além da inflação nestes últimos oito anos são consideráveis, certamente mais mais altos do que os esperados na iniciativa privada. No entanto, não são de forma nenhuma suficientes para recuperar mais de 20 anos de sucateamento dos governos FHC, Collor, Itamar e Sarney. Esta constante recuperação salarial no governo Lula também explica porque houve poucas greves no período, todas sem grande mobilização da categoria.

No entanto, a maioria da recuperação salarial apontada pela tabela foi feita até 2009. Nos últimos 3 anos, houve escassos aumentos e isso acabou culminando na forte greve deste ano de 2012. Este movimento não acontece com tanto vigor desde antes do ano 2000. Ao contrário de outras oportunidades, não há interesse político do sindicato, apenas clara insatisfação dos professores com o corte de gastos de Dilma neste início de mandato.

A greve que está se firmando é justa, mesmo considerando que a atual presidente represente um grupo político que recuperou sensivelmente nosso nível salarial. É sempre hora de brigar pelos nossos direitos,  salários e benefícios. Não se sabe se com Dilma haverá um programa de recuperação salarial tão bom quanto na era Lula, mas se educação foi tema forte de campanha é o momento de mostrar não era apenas discurso político. Vamos a luta!

Obs.: Valores calculados para um professor federal de nível médio ou técnico. Para professores do ensino superior o reajuste foi bem mais baixo. Não é à toa que estes são os que fazem a greve neste momento.