terça-feira, 5 de agosto de 2008

Criança Esperança - Ter um amigo?

Milhões de informações malucas circulam na internet sobre a campanha anual da rede Globo conhecida como Criança Esperança (CE). Os boatos são tão freqüentes que recentemente a própria Globo resolveu incluir em seu discurso que as "doações ao CE são depositadas diretamente na conta da Unesco". Há também muitas propagandas veiculadas em horário nobre que tentam mostrar a idoneidade da instituição e dos programas assistenciais.

O que quero questionar é que a Unesco é uma organização internacional, e isso que significa que a administração dos recursos oriundos do CE é feita por interventores nomeados pela Globo e pela própria Unesco. Por que deveríamos confiar nestas pessoas?

Não é a honestidade que eu coloco em foco, é adequação às nossas necessidades. Por que precisamos de uma ONG internacional para indicar projetos e propostas, ou seja, para administrar nosso dinheiro no nosso próprio país. Que recado o Brasil passa para o resto do mundo? Ineficiência, incapacidade, burrice?

As pessoas fazem as doações sem parar para pensar que estes mesmos recursos poderiam ser gerenciados pelo governo e aplicados em educação, saúde e habitação. Poderiam ir para as regiões que realmente precisam, de acordo com a forma que a gente achar melhor. A Globo não é governo e não tem autoridade para decidir o que é melhor para o povo, muito menos a Unesco.

Além disso, muitas dúvidas surgem e mostram a falta de transparência do Criança Esperança. Quais critérios são adotados para escolher um projeto em detrimento de outro? Como garantir que os recursos sejam aplicados de forma a realmente promover o bem estar social, não apenas uma maquiagem assistencialista para aparecer na TV?

Se o governo recebesse estas doações também poderia fazer assistencialismo eleitoral, sem dúvida, mas pelo menos a sociedade brasileira teria participação no processo de escolha do emprego dos recursos. Vereadores, Senadores, Prefeitos e Governadores são eleitos pelo Povo, e representam sua vontade. Quem não estiver satisfeito com a forma com que o dinheiro público está sendo investido pode encher as caixas de e-mail de políticos e partidos, pode fazer manifestações, escrever em blogs na internet e até mesmo votar em outros que melhor alinhem-se com sua ideologia. A eleição é o momento em que eu escolho quais políticos representarão minha vontade nos próximos anos.

Voltando ao CE, Segundo esta página, os projetos são escolhidos através de uma comissão de especialistas, os tais interventores, da Unesco e da TV Globo. Ou seja, estas pessoas elegeram a si mesmas representantes do povo e administrarão recursos doados da forma como melhor convir. Que absurdo! Quem faz doação deve pensar nisso, pois é com este dinheiro que a Globo e estas pessoas estão querendo agir como o governo, escolhendo quem merece ser agraciado com recursos.

Na minha opinião, se o Criança Esperança tem realmente boas intenções deve abrir suas contas e responder com transparência e honestidade as seguintes perguntas:

- As propagandas que patrocinam os shows são pagas? Este dinheiro é depositado em sua totalidade nas doações? Qual o valor?

- Os artistas recebem ou pagam para aparecer? Para onde vai ou de onde vem estes recursos? Qual o valor?

- Os técnicos e profissionais recebem normalmente, incluindo horas extras? Se sim, quem paga estes custos? As Doações, a Unesco ou a Globo? Qual o valor?

- A Globo debita algo no seu imposto de renda? As doações, o custo do show, o tempo de programação, o custo com funcionários?

- A Globo fica com alguma parte das doações, da propaganda ou qualquer outra parte para cobrir seus custos? Se fica, quanto?

- Qual o salário dos Especialistas da Unesco e da TV Globo? Quanto ganham coordenadores, colaboradores, consultores e principalmente aqueles que julgam os projetos? Quem paga estes salários? A Globo, as doações ou a Unesco? Qual o valor?

Ninguém sabe nada disso. Há muito menos transparência no Criança Esperança que na maioria dos projetos e licitações do governo. Acho que é dever da emissora tornar isso mais claro para seus doadores. Se quer fazer política social como se fosse governo, então tem que fazer com transparência. É um direito de quem está fazendo as doações!

Não tem gente que se irrita quando lembra que o povo paga mais de 10 mil reais de salário para um senador? Será que alguma parte das doações é paga para diretores, interventores, colaboradores ou alguém mais da Globo ou da Unesco? Quero saber isso!

Tem que dar exemplo, não é mesmo? Se possui um jornalismo que tanto cobra do governo por seriedade, por uso honesto e não-eleitoreiro do dinheiro público então o mínimo que se espera é que tenha este mesmo ímpeto para responder todos os boatos que existem, e tornar o Criança Esperança mais respeitoso com seus milhões de doadores.

Como diz a música, "na vida é tão bom ter amigos"! Não tenho dúvida disso, mas desconfio que desta forma somos mais amigos da Globo do que de quem precisa...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Os dois lados da história do regime militar...

Para minha surpresa, em uma enquete promovida pelo jornal O globo, cerca de 68% acham que não deveria "haver punição para a tortura durante o regime militar".

Estranho. Leitores de O Globo são conservadores e gostam de culpar a tudo e a todos. Jogam tudo na fogueira. Querem bandido morto, pregam que todos no governo são corruptos e até chamam empresário de bandido. Pobre então, é tratado pior ainda.

Por que então são a favor de não se punir os militares que torturaram, estupraram e mataram famílias inteiras? Parece-me estranho que os leitores que jogam tudo na fogueira agora querem ouvir o outro lado da história. Nunca quiseram... Deixo esta reflexão para meus leitores, este não é o motivo deste registro.

O que eu quero escrever é sobre este outro lado. O que fez de tão escabroso assim a esquerda? O que fizeram de tão ruim os revolucionários socialistas, comunistas e outras ideologias? A acusação é de que também tenham feito torturas, assaltos e assassinatos. Será que é verdade?

Infelizmente é. Sinto desgosto quando escuto isso pois não posso refutar. A esquerda promoveu sequestros, matou policiais e outros civis inocentes. Tudo em prol de ideologias que pregavam exatamente o contrário. Isso é triste.

E o regime militar, o que fez? Pior ainda. Matou centenas, muito mais que a esquerda. Muitos eram revolucionários e loucos perigosos, mas a maioria era de professores, sindicalistas e jovens estudantes que queriam apenas ter sua opinião ouvida por todos. Muitos dos meus professores relatam terem sido presos, alguns tiveram colegas torturados ou amigos e familiares que desapareceram completamente.

A diferença entre os crimes da esquerda e da direita é muito grande. Enquanto a esquerda cometia crimes, alguns muito sérios, empregando incorretamente suas ideologias, o regime usava o seu poder de estado, a máquina, para cometer abusos indescritíveis dos direitos humanos. Isso é muito pior...

Digo pior pois o estado não pode agir como bandido. Se um seqüestrador revolucionário mata policiais e tortura vítimas inocentes, o estado não pode também torturar toda a família do criminoso para obter informações sobre seu paradeiro. Não está certo. Se acharmos isso justo estaremos nos nivelando à mesma estupidez e desumanidade do que de pior existe na nossa espécie.

Se quem deveria promover a democracia, os direitos humanos e a cidadania usava as mesmas armas ou piores para agir contra a esquerda, então está errado. Não é porque "é guerra" que devemos nos igualar aos nossos mais cruéis inimigos.

O estado deveria dar exemplo. Deveria ter usado a inteligência, ao invés dos choques elétricos e sessões de pau de arara. Não foi capaz de distinguir quem era realmente bandido e quem queria apenas propagar suas idéias a seus alunos e à sociedade. Não foi capaz de separar criminosos de rebeldes juvenis. Não foi capaz de perceber onde terminava a ideologia e começava a luta armada.

E pior ainda. Não foi capaz de julgar, de punir, de desarticular a bandidagem verdadeira e promover a democracia. Usou métodos piores que os piores bandidos com a intenção de nos proteger, e sem o nosso consentimento.

Para concluir, quero dizer que há uma grande diferença de quando o bandido, seja ele quem for, mata e tortura para quando o estado faz o mesmo. O bandido não tem freios, moral ou valores. Deve ser preso e assim separado da sociedade.

O estado, no entanto, é o poder que emana do povo. Se nós não achamos tortura uma coisa certa, se não queremos isso na nossa vida, se não votamos e concordamos com estas técnicas desumanas, então o poder vigente da época o fez à revelia. E deve ser punido no maior rigor da lei.

Que se abram os baús da ditadura. Que se encontrem os torturadores, torturados e bandidos. Que se punam todos os crimes, de ambos os lados. Mas que se faça isso sabendo-se que o estado não deveria ter usado, de forma alguma, os mesmos métodos dos bandidos que lutamos tanto para prender. Não podemos deixar de punir àqueles que cometeram crimes à humanidade ou estaremos sendo complacentes com estes, e nos tornaríamos ainda mais vis e cruéis quanto os piores bandidos.