terça-feira, 12 de junho de 2018

Memórias estáticas

Sonhei com uma música antiga, que eu nem gostava, mas que me levou à infância. Ainda dormindo eu sabia, certinho, onde poderia encontrar o disco de vinil e em qual faixa aquela canção chatinha estava gravada. Me vi abrindo o armário mais baixo da minha casa, logo na entrada próximo à porta, puxando um a um aqueles grandes retângulos, cada um com uma história.

Acordei triste porque este local, cheio de discos antigos, não existe mais. Estava lá só quando eu era pequeno. O apartamento foi vendido. Os móveis, discos, sabe-se lá que fim levaram. Nada disso existirá novamente, não faz parte do mundo em que vivemos.

Mas a tristeza durou pouco, porque eu sei onde encontrar tudo isso novamente. Volto a dormir sorrindo, pois a estante de discos está lá, pronta para ser bisbilhotada. O local ainda persiste, forte e límpido na minha memória, onde ele mais importa.

Assim como todos os detalhes daquele apartamento de fundos, da rua Costa Pereira: as janelas com grades oxidadas, o piso da cozinha, pequeno e azul escuro. O banheiro verde com azulejos diferentes cheio de adesivos, o sinteco fosco e a televisão no centro da sala.

Está tudo lá, ao acessar da minha memória. Momentos felizes e outros nem tanto. Não posso modificá-los, não posso interagir, apenas observar minha mãe corrigindo provas, em uma mesa de madeira, que se abria como mágica. Posso ver meu pai fazendo anotações em uma mesinha de cabeceira perto da cama.

Posso abrir os armários e lembrar das roupas e bobagens que a gente tinha. Será essa a função dessas coisas? Fazer a gente lembrar de um tempo que não volta mais?

E todos estão lá, aqueles que habitavam a casa, em épocas diferentes, momentos da nossa vida: minha irmã, meus avós, amigos e vizinhos. Estão todos lá!

Acordo novamente, na minha casa, o despertador tocando e a minha vida seguindo. Lembranças novas sendo feitas, enchendo o futuro de sonhos.
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