domingo, 6 de julho de 2008

Como os livros de história descrevem a época de FHC?

Livros de história, do ensino médio ou fundamental, são normalmente atrasados cerca de 10 a 15 anos, ou seja, necessitam deste tempo para incluir novas épocas em seus conteúdos. Como estamos em 2008, os livros de história conterão acontecimentos até 1993, ou na melhor das hipóteses até 1998.

Isso significa que os livros que cobrem o primeiro e segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso foram possivelmente escritos há pouco tempo. Como será que contam a história de FHC?

Meu receio é que os livros não sejam tão fiéis aos fatos, pois em geral historiadores baseiam suas descrições em recortes de jornais, revistas, programas de rádio e TV. Se estes meios eram tendenciosos na época, então os livros também serão.

A nossa mídia possui uma forte inclinação à direita, uma preferência clara ao PSDB e ao DEM. Dá para notar quando a Globo resolve não comentar um escândalo de São Paulo ou de Minas, governados pelo PSDB, ou enaltecer a oposição no congresso, mesmo que esta não corresponda à maioria ou vontade popular. Possui claramente dois pesos e duas medidas pois enquanto é rigorosa com o governo federal, esquece dos escândalos que envolvem seus aliados Tucanos e Demos.

Quando a mídia, falada ou escrita, faz retrospectos históricos, sempre citam a "estabilização" do Real conseguida por FHC, como se esta fosse um marco na nossa história. Os livros didáticos também farão isso, sem dúvida, pois possuem tendência a usar como base publicações da própria mídia.

Será que farão a famosa citação de que "os resultados da economia no período de FHC são ruins pois o cenário econômico mundial ia mal"? Dirão também outra pérola, de que "FHC colocou o país no caminho certo e Lula foi beneficiado com isso"? Certamente que sim...

E isso é lorota? Lógico! É uma interpretação cega e parcial de algum partidário político. São ideologias, não são análises históricas. Mas é isso que a mídia disse, por diversas vezes, e é isso que registrarão os livros didáticos.

Certamente dirão que "Lula é um sortudo", que conseguiu tudo graças ao "bom cenário econômico mundial", mas que foi FHC e sua enorme sapiência que "orientou o Brasil para o crescimento". Meu deus, até dói escrever isso, mesmo por brincadeira.

O que realmente aconteceu no período FHC não fará parte das ementas dos livros didáticos, mas felizmente está amplamente registrado nos blogs e na internet. Não sou professor de história, mas deixarei aqui as impressões de alguém que viveu o plano real, que encontrou seu primeiro estágio e emprego durante esta época, que lutou em um país quebrado e à beira do abismo. Uma época menos dura que os anos de chumbo da ditadura, mas igualmente traiçoeira.

Como eu consegui sobreviver? Sorte ou Deus? Deixo para que meus leitores reflitam:

- Ao final de 93/94, quando eu ainda era aluno do curso técnico de Eletrônica no CEFET, o Brasil sofria uma inflação absurda. Algo como 40% ao mês. Fernando Henrique Cardoso (FHC), na época ministro da fazenda, percebeu que quem conseguisse controlar a inflação cairia nas graças do povo.

- Então foi idealizado o plano real. A moeda da época, o Cruzado Novo, foi indexada ao dólar criando a URV (Unidade Real de Valor) que seria reajustada de acordo com a valorização do dólar.

- Com medo de que FHC congelasse os preços e impedissem aumentos futuros (como havia acontecido anteriormente), o comércio aumentou muito os preços preventivamente. A inflação estava nas alturas quando o plano Real veio à tona. A URV seria a nova moeda, denominada apenas Real.

- Como a inflação seria medida apenas a partir da criação do Real, O absurdo aumento de preços em cruzados novos foi totalmente ignorado. Muitas pessoas entraram na justiça reivindicando perdas em cadernetas de poupança e recentemente ganharam, provando que isso foi verdade.

- A partir do plano Real, a inflação na nova moeda diminuiu consideravelmente. Na verdade, os preços estavam altos demais, e muitos meses se passaram até que o governo precisasse fazer algo para realmente combater à inflação em Real. Em outras palavras, tivemos uma inflação absurda não registrada e a seguir pequenas deflações anotadas como se fossem um marco na história Brasileira.

- Assim, FHC foi eleito presidente do Brasil pela primeira vez. Um golpe, não parece? Mas ninguém dirá isso nos livros didáticos... FHC era um mártir de uma mídia totalmente vendida. Todos os meus professores do CEFET contavam esta história, ouvia-se isso em todas as "conversas de bar", em todos os "papos de farmácia" e pontos de ônibus. Alguem publicou isso? Era tabu falar mal de FHC, ele era um gênio, enganara a todos.

- FHC continuou controlando a inflação durante todo o seu primeiro mandato, mas não da mesma forma. Agora a idéia era simples: Sempre que a nossa moeda era corroída pela inflação, o governo usava as reservas internacionais do país para colocar mais dólares no mercado. Com isso o dólar diminuía de preço, por que havia mais oferta, e nossa moeda se valorizava novamente.

- Mas e quando as reservas acabassem? Por sorte de FHC isso só foi acontecer às vésperas da eleição de 1998. Para impedir que a inflação aparecesse e que a imagem de FHC fosse manchada, o Brasil recebeu dinheiro do então presidente dos Estados Unidos Bill Clinton para continuar mantendo o dólar baixo. Foi dinheiro extra, além do que recebeu do FMI... Com a inflação controlada FHC derrotou Lula novamente em 1998, desta vez no primeiro turno.

- Será que alguem falou isso na mídia? Alguém desmascarou FHC? Lógico que sim, mas não era publicado. Era gente do PT, como o próprio Lula, além do pessoal de sindicatos e intelectuais. Não adiantaria nada... A imprensa estava embriagada com FHC, seu mártir, "O Farol de Alexandria que ilumina o passado e futuro", como diria Paulo Henrique Amorim.

- Com apenas alguns dias no segundo mandato, FHC desvalorizou o real e colocou o Brasil no trilho certo! Para o abismo, lógico. Tivemos que nos submeter ao FMI diversas vezes, cortamos todos os investimentos, tivemos apagão elétrico, cortes em educação e saúde. Passamos por tempos muito ruins, com empresas como a própria Globo à beira da falência.

E eu? Em 96, antes do primeiro mandato de FHC, fui trabalhar na Globosat. Com o colapso do Dólar no segundo mandato de FHC quase perdi o emprego. Que empresa manteria um funcionário que trabalhava pouco e estudava muito?

A sorte foi que a Globosat começou a vender sua programação para Portugal e Europa. Com o dinheiro europeu entrando foi possível sair do sufoco, e eu não fui um dos quase 50 demitidos no que o pessoal chamava de "a barca dos desesperados". Eu não resistiria à uma segunda "barca", estou certo disso. Quantos perderam seus empregos em diversos setores da economia?

Hoje como professor do CEFET, o que mais me irrita nestes livros é esconder totalmente a degradação promovida por FHC a todas as instituições públicas no Brasil. Tudo foi cortado, privatizado, destruído.

Talvez alguns alunos, ou mesmo pais de alunos, não saibam que o CEFET estava para ser privatizado ao fim do mandado de FHC, e só não se levou o projeto à cabo pois Serra foi derrotado por Lula em 2002.

Se as idéias do então ministro Paulo Renato, do segundo mandato de FHC, tivessem sido implementadas, o CEFET passaria a usar dinheiro público para dar formação técnica fraca a apertadores de parafuso, montadores e outros interesses do mercado. Formação técnica de qualidade como eu recebi, não seria dada a mais ninguém. Nada mais seria bom e de graça.

Diante das baixa confiabilidade dos livros, cabe aos professores ressaltar as divergências de opinião apontando diferentes leituras, formando pessoas capazes de discernir ideologias de fatos. Cabe aos educadores dar instrução para aqueles que um dia serão eleitores e farão parte da história, e deseja-se que sejam capazes de compreender com orgulho um passado contado de forma correta e imparcial, além de construir algo muito melhor para nos orgulharmos ainda mais no futuro.