segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Estatística não mente nem fala a verdade...

Fazer estatística é a coisa mais fácil do mundo. Calcular média, desvio-padrão e curva normal não é um bicho de sete cabeças, nada mais do que um monte de fórmulas prontas que pode ser ensinado à qualquer aluno de ensino médio. O problema é ensinar a analisar a concluir a partir dos dados.

Muita gente erra a análise, decidindo o contrário do que os dados mostram, ou mesmo não percebendo falhas que poderiam ser evitadas apenas utilizando-se o bom senso. Ter noção da realidade é muito importante, principalmente se alguma estatística aponta para a direção contrária do que todo mundo percebe ser o correto. Como regra geral, antes de achar que um incêndio está ocorrendo é importante perceber que nenhuma estatística tem intenção de mentir ou de falar a verdade.

No afã em falar mal do governo, muitos políticos e jornalistas da oposição caíram no conto da estatística e cometeram erros crassos de análise. Recentemente encontrei duas destas incoerências, levando a conclusões alarmísticas e incendiárias, que na verdade são apenas frutos de uma péssima análise dos dados.

Antes de mostrar estes erros vamos analisar o momento político econômico Brasileiro nos últimos anos. Todos sabemos que houve aumento na geração de renda do trabalhador em todas as classes sociais [1] [2] [3]. Houve também record na criação de empregos [1] [2] [3]. Recentemente o governo teve que colocar o pé no freio para que não houvesse inflação, já que o consumo das famílias anda demasiadamente alto [1] [2] [3]. Tudo isso fez a popularidade do presidente ser uma das maiores do mundo e de todos os tempos [1] [2] [3].

Com todo este otimismo, deve-se desconfiar quando aparece um dado que mostra aumento do desemprego ou diminuição de renda, não é? Não podemos deixar de lembrar que a estatística não pode ser analisada de forma fria, direto do computador, deve sempre ser relacionada à realidade.

Foi exatamente o erro que cometeram os jornalistas Clovis Rossi e Ricardo Noblat, da folha de São Paulo e de O Globo. Divulgaram em seus blogues e colunas que o governo Lula era uma farsa [1], tudo por causa de um dado divulgado pelo IPEA mostrando que entre 2005 e 2010 o desemprego entre os 10% mais pobres, grande parte classe E, aumentou de 23,1% para 33,3%.

Os dados estão certos! A análise é que está incorreta. Qualquer um deveria desconfiar desta conclusão, não é mesmo? Nesta mesma faixa de salários a popularidade de Lula e Dilma é a maior de todas. Será que o pessoal da classe E é maluco e continua votando na situação mesmo sem ter emprego? Claro que não.

O erro está em achar que 33,1% é maior que 23,1%, pois neste caso desconsidera-se que houve grande diminuição no tamanho das classes D e E, já que grande parte desta migrou para a classe C graças às políticas de incentivo ao emprego formal e aumento do salário mínimo. A classe C aumentou quase o dobro entre 2003 e 2010 [1] [2].

Com a classe E diminuindo para menos de 50% do que era em 2003, este "aumento" de 23,1% para 33,3% representa na verdade um diminuição no número absoluto de desempregados, ou seja, um dado positivo a ser comemorado. Isso pode ser demonstrado nas equações a seguir:

 

Outro que escorrega quase no mesmo erro é José Serra em seu Blog [1]. Se alguém quiser acessar e conferir a análise, procure no Google pois me recuso a deixar link para esta porcaria. Recentemente, o derrotado candidato à presidência deixou em sua página os dados do CAGED de criação de empregos desde 2003 (por que não deixou desde 1999?) até 2011.


Em análise, como pode-se perceber nos itens em vermelho, Serra conclui que o desemprego está assolando o Brasil, pois a partir de dois salários mínimos há grande diminuição na criação de vagas. Ai meu deus! Deverá estar se perguntando o leitor. Por que será eu votei na Dilma?! [SIC].

Na verdade, o tucano se esquece de levar em consideração que o salário mínimo entre 2003 e 2011 aumentou quase três vezes de valor, muito mais que a inflação do período. Lógico que as vagas de emprego nas faixas altas vão diminuir. Em janeiro de 2003, por exemplo, se alguém ganhasse 10 S.M. receberia R$2300. Em Junho de 2011 esta mesma faixa salarial receberia R$ 5650.

É totalmente normal que o número de empregos disponíveis nas faixas mais altas tenha diminuído, pois nenhuma empresa indexa sua folha de pagamento ao salário mínimo, que não tem este objetivo. Se Serra dispusesse de seu tempo para ler o jornal perceberia que houve grande aumento de renda da classe A, assim como em todas as classes sociais [1] [2] [3]. Lógico que o emprego está em alta entre os ricos, eles também aprovam fortemente o governo Lula.

O que leva à análises erradas, usualmente, é comparar situações em dois momentos de tempo sem perceber que há grande diferenças entre elas. Se o tamanho da amostra muda, como no primeiro caso mostrado, ou o valor que indexa os dados modifica mais do que o esperado, como no segundo caso, deve-se levar isso em consideração na análise, para que se possa concluir de forma correta.

Fica então a dica para jornalistas e políticos da oposição: nunca interprete números sem antes entender a realidade. Veja como está o povo, a renda, o poder de compra e o desemprego antes de verificar novas tabelas, principalmente quando quiser concluir o contrário do que todo mundo está percebendo. Um novo dado muito dificilmente negará algo que se percebe na rua, ou seja, de que o povo anda com muito dinheiro e o emprego está de vento em popa. A popularidade de Lula nunca seria tão alta se ele não tivesse grandes méritos.

A oposição deveria parar de revirar os números de cima para baixo procurando defeitos e fazer propostas concretas para melhorar algo no país. Do jeito que a coisa vai, daqui há alguns anos o pessoal do Serra vai ser obrigado a fazer suas futuras estatísticas apenas com o pessoal diferenciado de Higienópolis. Os mesmos que ainda acreditam nas bobagens que este cara fala.