segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Por que não gosto de Gabeira?

Para mim, Fernando Gabeira foi uma das maiores desilusões na política dos últimos anos. Tendo participado da luta armada, do MR-8, do sequestro do embaixador americano e de tantas e inúmeras lutas no PV, esperava discordar dele em diversos assuntos, mas nunca vê-lo ao lado do PSDB que tanto criticou.

Sou contra a legalização das drogas, bandeira tão defendida por Gabeira, e acho a maioria dos ecologistas pouco razoáveis nas questões que discutem. No entanto, sempre considerei a estrela do PV uma grande figura do pensamento político brasileiro. Até bem pouco tempo.

Mas antes de continuar com este texto, vamos a uma rápida retrospectiva política. Antes de Lula assumir a presidência, com a eleição de 2002, existiam dois grandes grupos no PT: os que queriam ser oposição eternamente, que lutavam e gritavam de forma ferrenha contra o poder vigente, e os que se esforçavam para conseguir eleger Lula, governadores e prefeitos, aqueles que queriam botar a mão na massa.

Quando Lula foi eleito, não demorou muito para que o PT se separasse. A parte rebelde não poderia continuar com o mesmo discurso e passar a ser situação, pois neste caso seria oposição de si mesma e isso não faria sentido. Muitos nomes deste grupo migraram para a extrema esquerda, para o PSOL e PSTU, onde podem continuar a defender suas infames e utópicas idéias como as pérolas "Corrente Socialista dos Trabalhadores" ou então "Socialismo Revolucionário".

Mas voltando ao principal, Gabeira era parte daquele primeiro grupo dos rebeldes sem causa que integravam o PT pois viam no partido terreno para suas mirabolantes elucubrações. Assim que Lula assumiu e passou a lidar com problemas reais, que requerem soluções às vezes não tão perfeitas, Gabeira declarou que "sonhou o sonho errado" e se desfiliou do PT, voltando ao PV de origem.

Até aí nada demais, pois muitos políticos do primeiro grupo se desfiliaram do PT. O problema foi o que Gabeira fez depois. Agora em 2008 ele tenta se eleger prefeito do Rio de Janeiro em aliança com o PPS e o PSDB!

Heloísa Helena, Cristovam Buarque e Chico Alencar também saíram do PT, mas nunca apoiaram ou aliaram-se à oposição que outrora tanto rechaçaram. Esta atitude de Gabeira não pode ser vista de outra forma além da total ausência de ideologia. Nunca achei que isso fosse acontecer com uma figura tão coerente com suas idéias.

Esperava isso de ACM neto, e nada me surpreendeu quando este disse recentemente que trabalharia junto à Lula após ter declarado no passado recente que daria uma surra no presidente. O DEM e o PSDB não são possuem rigidez ideológica, se adaptam de acordo com a necessidade. Alckmin, por exemplo, já foi responsável por privatizações durante o governo Covas e adorador das estatais durante a campanha para presidente em 2006.

Mas Gabeira não era assim. Defendeu os homossexuais, a descriminalização dos usuários de drogas e a legalização da prostituição. Temas polêmicos nunca foram carro chefe de nenhum político vaselina do DEM ou PSDB. Para que serve então, esta aliança com a oposição de direita?

Sem a resposta para esta pergunta, não tenho como ver com bons olhos a candidatura à prefeito de Fernando Gabeira. Não concordo que um político seja tão antagônico a ponto de ter pertencido ao PT e agora passar para o quadro do PSDB, partido que destruiu e vendeu o país em oito anos de governo.

É realmente intrigante como um defensor de propostas polêmicas e revolucionárias agora deseja manchar sua biografia se aliando ao partido de FHC. Leva-me a crer que talvez suas ideologias não eram assim tão fortes, e afinal foram empregadas apenas como trampolim para tornar o militante do PV conhecido em todo o Brasil.

Espero realmente que eu esteja errado, mas até lá, olho neste cara! Se está entre os lobos, deve apenas ter pele de cordeiro...

Para quem vota no PV nesta eleição em 2008, esteja ciente que no fim das contas será como se estivesse votando também em FHC, Alckmin, Serra, Arthur Virgílio e outros ícones tucanos da nefasta política brasileira. O custo político desta aliança que Gabeira fez com os tucanos foi ter sua imagem associada à terrível administração do PSDB no governo federal, em São Paulo e em outros estados. Vai ser difícil convencer às pessoas que isso não é verdade.

Não quero mudar o voto de ninguém, mas o meu será dado certamente a outro candidato. Sou membro com orgulho da comunidade "PSDB nunca mais" no orkut, e estes tucanos não me enganam, mesmo disfarçados de Partido Verde.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Bolívia, o Brasil que não poderíamos ser...

A confusão na Bolívia criada pela oposição, e que é tratada pela mídia local como culpa de Evo Morales, não poderia estar se repetindo aqui no Brasil.

Muita gente acha que se Lula tivesse sido tão incisivo quanto Chávez (Venezuela) e Morales na distribuição de renda, na partilha da riqueza das estatais e na justa apropriação da algumas empresas privadas, poderíamos estar perto do conflito armado e do separatismo de nossos estados do poder central, enfim, na iminência de um golpe de estado.

Apoio para este movimento certamente haveria, o PIG apoiaria de forma irrestrita que o governo de São Paulo liderasse um movimento anti-Lula, de forma semelhante às províncias ricas da Bolívia que recebem apoio da imprensa local.

Por que isso não acontece no Brasil? Na verdade foram feitas diversas tentativas, todas sem qualquer êxito.

Desde o primeiro governo de Lula a imprensa tentou de tudo para causar as mesmas revoltas da Bolívia criando crises institucionais e políticas. Primeiro foram os sanguessugas e depois o ficcional mensalão. A seguir foi a vez das contas falsas de Lula e de integrantes do Governo nos paraísos fiscais, bem como a louca denuncia do dinheiro de Fidel nas caixas de uísque. Tentou-se também criar problemas com o desmatamento, com a falsa epidemia de febre amarela e mais recentemente tenta-se emplacar a "crise" dos grampos ilegais.

A verdade é que o Brasil é diferente da Bolívia em um ponto crucial. Lá a população pobre, de descendência indígena, habita principalmente as províncias do oeste enquanto os ricos ficam no leste. Há tensão separatista, duas realidades que convivem distantes uma da outra.

No Brasil a favela está na esquina das mansões. No Rio de Janeiro, por exemplo, a população rica da zona sul convive lado a lado com a classe média e com as comunidades pobres, tendo que compartilhar a violência, a confusão do transporte público e às vezes até mesmo o sistema de saúde e educação. Os jornais do tipo O Globo e as revistas como a Veja não conseguem polarizar a população por mais de um quarteirão, pois os pobres vivem pouco separados dos ricos, e sabem muito bem como Lula fez bem para sua vida.

Comitês cívicos como os que protestam contra Morales também existem aqui no Brasil, mas não conseguem apoio da população de um estado inteiro. O movimento Cansei, por exemplo, é bastante semelhante ao liderado por Blanko Markovic na Bolívia, mas não obtém sucesso em suas empreitadas.

A população pobre está no centro de São Paulo, do Rio de Janeiro e de todas as grandes capitais e achará ridículo as reivindicações e choradeiras direitistas. Perceberá que sua vida melhorou com Lula devido ao pro-uni, aos CEFETs, ao bolsa família e à diminuição do desemprego. O Brasil nunca será uma Bolívia devido à mistura social de suas grandes cidades.

Por isso é hora de Lula usar sua popularidade para promover grandes movimentos sociais. O país está no rumo certo mas precisa de mais educação, saúde e emprego se quiser tornar-se potência mundial. Aqui pode-se deixar os comitês cívicos e movimentos de direita à vontade pois o máximo que conseguirão é reunir uma dúzia de madames e atrizes da Globo para fazer protestos vazios e espalhar bandeirinhas, cruzes e lacinhos sem qualquer proposta.

Promover mudanças profundas na distribuição de renda será o desafio do final do governo Lula e dos próximos que virão. Não devemos ter medo dos golpismos da mídia pois nunca encontrarão apoio. Estamos com a faca e o queijo na mão comendo o primeiro sanduíche, aguardem pois o banquete será servido.