segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O voto e o interesse dos pobres...

Os ricos no Brasil ainda vêem os pobres
como malandros, que passam o dia a vadiar.


Esta última eleição para prefeito, principalmente na cidade do Rio e São Paulo, reacendeu uma discussão antiga e interminável: a forma com que votam as pessoas de baixa renda.

O assunto voltou à tona e apareceu na mídia em diversas análises sobre a candidata Marta Suplicy (PT), que perdeu em SP, e Eduardo Paes (PMDB) que ganhou no Rio de Janeiro. Ambos obtiveram expressiva votação nos bairros onde a média de renda e escolaridade são mais baixas.

Quando há uma clara diferença entre pobres e ricos na escolha de seu candidato, as opiniões da mídia sempre analisam o perfil do eleitorado de baixa renda encaixando-o no estereótipo do malandro, aquele que vive a vadiar. Ou seja, os pobres são lembrados como pessoas sem ambições, que passam o dia a dormir e a noite na boemia. Gastam tudo que ganham em bebida e moram na favela por opção, porque é mais fácil.

Todos estes jornalistas fazem parte da elite, graças a seus altos salários, e encaram a população de baixa renda como malandros. Assim, o comentário geral dos metidos a intelectual é sempre igual: que os mais pobres votaram em Eduardo Paes, Marta Suplicy ou no próprio Lula por causa do bolsa família, dos programas sociais e dos investimentos em áreas mais pobres. Vejam só! Votaram por interesse!

Lógico que dar camisa e lanches ou promessas de emprego deve ser considerado ilegal. Mas de qualquer forma, o eleitorado de baixa renda seria criticado mesmo que não fosse utilizado nenhum desses artifícios. Quem tem dinheiro acha que o voto do pobre é pura esperteza e interesse.

A elite confunde riqueza com intelectualidade e falta de dinheiro com malandragem, e assim ninguém criticará o interesse do rico em seu voto. Só que quando as altas classes sociais escolhem um candidato que promete diminuir impostos e abrir o governo à iniciativa privada estão cometendo o mesmo "voto de cabresto" que tanto reclamam.

Escondem-se sobre o véu da ideologia, mas são tão interesseiros quanto os que votam por um lanche. Vão se desculpar dizendo que diminuir impostos e entregar os gastos do governo à iniciativa privada é o correto para o Brasil ir para frente. Nem discuto se é ou não, mas o fato é que o voto é dado por interesse próprio, são pessoas que querem pagar menos impostos e almejam receber uma grande parte do bolo público. Esse é o bolsa-família dos ricos, um assistencialismo muito maior que na versão original.

Se o pobre é criticado porque vota no Lula para receber bolsa-família, uma visão deturpada e desconectada da realidade, é justo que também possamos criticar o topo da pirâmide quando escolhem os neo-liberais Serra e Alckmin querendo isenções fiscais e vantagens nas ondas de privataria. Desonestos, todos que quiserem ser serão, o interesse pessoal pode ser o maior fator na escolha do voto tanto para os ricos quanto para os pobres.

Ambos os lados escolhem seus candidatos pensando em melhorar de vida, em conseguir vantagens para si e para a parte da sociedade em que vive. E ninguém está errado ao fazer isso! O problema é a falta de respeito da mídia ao criticar o voto do pobre por interesse e esquecer-se vergonhosamente que a elite rica, com toda sua intelectualidade, também emprega os mesmos métodos.

A mídia precisa entender que todos os votos têm a mesma importância, ricos e pobres, e enquanto o segundo grupo for maior, a eleição será vencida por quem oferecer melhor condição de vida e vantagens para esta parte da sociedade. Nada mais justo que ouvir o próprio povo para saber o que é preciso fazer para melhorar o país, é um conceito antigo e justo, chama-se democracia.